viernes, 27 de mayo de 2011

Ademir Assunção, Lucidez de Chacal























Lucidez de Chacal /18/5/2011

Fuente: http://zonabranca.blog.uol.com.br/

O poeta Chacal participou de um evento no Rio de Janeiro ligado à literatura, livro e leitura. Não sei bem do que se trata. Sei que ele escreveu uma carta endereçada a uma das organizadoras: um texto brilhante em defesa da poesia, do poeta e do curto-circuito que a arte pode causar na vida das pessoas, principalmente as mais novas. Chacal é daqueles que acreditam no que faz. E faz bem. Muito bem. Sabe da importância não apenas de fazer poesia, mas de fazê-la voar pelas cidades, becos, salas, salões, praças, palcos, espeluncas, o que for.

Vai o texto dele aqui:

minha cara lêda fonseca,
muito admirei esse encontro da leitura e do livro na biblioteca nacional. principalmente o empenho e o entusiasmo com que você, a simone e a vera saboya, no estado, tem se dedicado a causa de reerguer as bibliotecas e colocar o livro como principal agente na educação das novas gerações. conte comigo. mas me permita algumas considerações:
um = acho que a questão é mais de leitura do mundo do que do livro, equipamento que perde em termos de sedução para a televisão e agora para o computador. ainda bem que podemos embutir o livro, com som e imagem, dentro dos i pads da vida, o que em breve, tornará a leitura uma das mais atrativas e baratas diversões. a criança leva sua biblioteca na mochila.
dois = acho que a palavra escrita, como dizia platão, rouba a presença do autor. e com isso uma expressão mais viva, sensorial, o mais espetacular áudio visual: o autor falando sua obra. por isso me bato há muito e creio que seja o melhor meio de atrair a criança para o poema. ela que tem tanto a nos ensinar pela forma ainda lúdica com que trata a palavra.
três = acho que com um empurrão das editoras, elegeram o livro para cumprir uma função que devia ser do professor ou dos pais, isto é, educar. mas com a escola e a família levadas de roldão pela vertiginosa velocidade das mudanças tecnológicas e toda uma nova cultura que isso acarreta, essa função passou para a televisão e agora para micros, celulares e i pads. reconheço o desejo gigante de recuperar esse déficit. mas acho que não devemos terceirizar essa responsabilidade. assumir de novo esse compromisso com prazer e coragem, nos abrindo para um mundo com outros valores e velocidade e não criando um deus ex-machina, que a tudo salvará.
quatro = não era sem tempo dos esforços de melhorar o nível do ensino básico, contasse com a união do governo federal, estadual e municipal e principalmente da educação e da cultura. publico há 40 anos e sempre me senti um educador. mal educado, por supuesto,que reclamo mais que declamo, mais grito que sussurro. acho que todo artista em potencial é um educador e assim precisa se perceber e ser percebido pelo poder público e pela sociedade. não mais a criatura que enfeita cerimônia, anima showmício ou aparece nos curraizinhos vip das revistas caras, mas uma pessoa que tem seu modo de ver e através de sua arte, ilumina o mundo. gostaria que houvesse também essa união: artistas e educadores. essa troca será engrandecedora e muito útil nessa batalha.
no mais, minha amiga e entusiasmada lêda, conte comigo para o que der e vier.
saudações fraternas
chacal


Os que frequentam esta espelunca sabem bem da minha militância em relação à literatura, livro e leitura, direitos de autores, etc. Tenho convicção, e defendo isso onde vou, de que a literatura não se resume aos livros (produto comercial que movimenta a indústria editorial). Pode se desdobrar em revistas (feitas pelos próprios poetas e escritores, como a Coyote, Ontem Choveu no Futuro,Inimigo Rumor, Babel, Polichinelo, Orobóro, O Carioca, etc – sempre ameaçadas de extinção, ou já extintas, por absoluta falta de grana), leituras, cds, encontros literários e, agora, internet. Por isso sempre reivindico políticas públicas, para que recursos (dinheiro) cheguem àqueles que realmente colocam a mão na massa e fazem. E não estou falando de dinheiro para tornar poetas e escritores ricos. Não venham com essa malediência. Estou falando em dinheiro para que tenham condições de continuar desenvolvendo a poesia e a literatura e a sua difusão. Como muitos fazem há anos, séculos, milênios, sem o menor apoio. Na raça, na teimosia, na paixão.
E tenho falado por aí: diante da óbvia proliferação do livro eletrônico (é só questão de tempo) se a indústria editorial se comportar com a mesma ganância que a indústria fonográfica se comportou em relação à disseminação de música pela internet, vai dançar. Quem vai impedir que garotos e garotas compartilhem e-books pela internet? Ou que os próprios autores organizem suas livrarias virtuais e vendam seus livros a preços justos e com remuneração autoral decente?
É um ótimo momento para a indústria editorial se antecipar e mostrar que realmente respeita os autores (pagando direitos autorais justos sobre o e-book) e os leitores (baixando o preço dos livros) – já que os custos do livro eletrônico são incomparavelmente menores do que o livro impresso.
Fora isso, poetas e escritores (os de verdade) continuarão cuidando muito bem da poesia e da literatura.