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jueves, 16 de abril de 2009

Frey Antonio das Chagas, Soneto

Deus pede estrita conta de meu tempo.

Forçoso de meu tempo é já dar conta.

Mas como dar sem tempo tanta conta

eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo

o tempo me foi dado e não fiz conta.

Não quis sobrando tempo fazer conta,

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh, vós que tendes tempo sem ter conta

não gasteis o vosso tempo em passatempo,

cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, ah! se os que contam com seu tempo,

fizessem desse tempo alguma conta,

não chorariam como eu o não ter tempo.



Dios pide estricta cuenta de mi tiempo. / Forzoso es de mi tiempo ya dar cuenta. / Pero cómo, sin tiempo, dar la cuenta/ yo que gasté, sin cuenta, tanto tiempo? / Para tener mi cuenta hecha a tiempo / el tiempo me fue dado y no hice cuenta / Sobraba tiempo y postergué la cuenta / Hoy quiero hacer la cuenta y falta tiempo. / Oh tú, que gastas tiempo y no haces cuenta / no malgastes tu tiempo en pasatiempo / advierte que ya es tiempo de hacer cuenta. / Pues-ay!- si los que cuentan con su tiempo / hiciesen de su tiempo alguna cuenta, / no llorarían, como yo, no tener tiempo/

(Versión castellana : Ignacio Vázquez)

Apostilla 2

Affonso Romano de Sant’ Anna en su imprescindible libro Barroco, do quadrado à elipse (2000) cita este soneto de das Chagas como ejemplo de las proezas combinatorias que eran moneda corriente en el barroco portugués.

Frey Antonio das Chagas(1631-1682) nació en Portugal, vivió en Bahía y se convirtió a raíz de las lecturas del asceta español fray Luis de Granada e ingresó a la orden franciscana. Entre sus obras, publicadas después de su muerte, se cuentan Faiscas de amor divino e lagrimas da alma (Lisboa, 1683); Obras espirituaes (Lisboa, 1684-1687); O Padre nosso commentado (Lisboa, 1688); Espelho do Espirito em que deve verse e comporse a Alma (Lisboa, 1683); Escola da penitencia e flagello dos peccadores (Lisboa, 1687); Cartas espirituaes (Lisboa, 1684); Ramilhete espiritual (Lisboa, 1722).

Gregorio de Mattos.

Juízo anatômico dos achaques que padecia

o corpo da República em todos os membros,

e inteira definição do que em todos

os tempos é a Bahia.

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Descreve o que era realmente naquelle tempo

a cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos Mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.

Inconstancia das coisas do mundo

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tritezas e alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falta a firmesa,
Na formosura não se dê constancia,
E na alegria sinta-se a triteza,
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na incostância.

Pintura admirável de uma beleza

Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?
O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?
Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?
Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.